segunda-feira, 29 de abril de 2013

[TEXTO] “PUXANDO COBRA PROS PÉS” OU AS DIFICULDADES DA PESQUISA EM HISTÓRIA MEDIEVAL NO BRASIL



     por Elvio Franklin
(UFC/Valknut)

        Certa vez, um mero estudante de graduação em história de uma universidade federal de renome, situada em algum lugar do Nordeste brasileiro decidiu que deveria seguir seu sonho ao entrar no referido curso – estudar História Medieval – afinal de contas, ele já estava na metade do curso e já havia percebido que poderia pesquisar o que bem entendesse, contanto que se esforçasse e estudasse bastante. Assim, o nosso estudante sonhador aproveitou a oportunidade, em uma disciplina que serviria exatamente com o intuito de iniciar um projeto de pesquisa, para demonstrar seu desejo. A resposta que recebeu da professora/orientadora foi nada menos do que a frase que inspirou o título deste texto – “Rapaz, tem certeza que queres pesquisar isto? Você está puxando cobra pros pés...”.

                Esta pequena fábula, apesar de simplista, representa a realidade de muitos estudantes de História pelo Brasil afora. E nas regiões Norte e Nordeste em especial, variações desta estória devem acontecer com muita frequência.  
                Bem, estamos em pleno século XXI, inicio do segundo milénio da era cristã, e é impossível negar as raízes medievais de toda a história posterior a este período. O famoso historiador medievalista Jacques Le Goff explana este vínculo no livro As Raízes Medievais da Europa, da “Europa” diz o título da obra, mas quem a lê percebe que a expansão espacial deste recorte é inevitável. Outro historiador francês, o não menos famoso Fernand Braudel, nos fala de uma Longa Duração, ou seja, a distância cronológica do período também não pode ser um problema. A pergunta frequente que se faz aqui é: “Qual a relevância de estudar História Medieval no Brasil?”, para quem ainda tem esta dúvida sugiro a leitura do estudo do medievalista BRASILEIRO Hilário Franco Júnior, Raízes Medievais do Brasil, onde se percebe que nosso imaginário, nossa cosmovisão, nossa moral e nosso sentido de ética, estão mais próximos da Idade Média do que imaginamos. Eu já cheguei a ouvir muitas vezes a afirmativa: “no Brasil não podemos topar com Igrejas do período medieval ou com artefatos deste período existentes em inúmeros museus da Europa”, a única conclusão que eu tiro de quem assim pensa é: este pobre mortal ainda não conhece uma das maiores criações de sua raça, a internet...
                Ou seja, não há mais desculpas. A pesquisa medievalista no Brasil não só é possível, como também necessária. Isto já pode hoje ser observado pela quantidade de grupos e núcleos de pesquisa, revistas, periódicos e encontros com profundas discussões sobre a temática do medievo. Em 1996 é fundada a ABREM (Associação Brasileira de Estudos Medievais) e dois anos depois, em 1998, surge ligado á ANPUH (Associação Nacional dos Professores de História) o Grupo de Trabalho de História Medieval. Eventos muito importantes sobre história, literatura e filosofia medievais acontecem todos os anos, e muitos (quem diria!) nas regiões Norte e Nordeste.  Revistas eletrônicas (que são muito mais baratas do que as físicas, até porque são de graça!) como: Mirabilia, Revista Eletrônica de Antiguidade e Idade Média; Signum (revista oficial da ABREM); Brathair, Revista de Estudos Celtas e Germânicos; NuntiusAntiquus (revista do Núcleo de Estudos Antigos e Medievais da UFMG); NotíciasAsgardianas, Boletim do Núcleo de Estudos Vikings e Escandinavos; Plêthos, Revista Discente de Estudos sobre a Antiguidade e o Medievo; a Revista MundoAntigo (sobre História Antiga, Medieval e Arqueologia da UFF); entre muitas outras.
                A Idade Média encanta as pessoas de todo o planeta desde pelo menos o próprio “Renascimento”. E hoje mais do que nunca, temos desde jogos digitais abarcando o tema da antiguidade ao medievo das formas mais expressivas possíveis, histórias em quadrinhos sobre vikings beberrões e bárbaros com machados, literatura histórica ou romances capa e espada, filmes os mais variados abordando temas batidos ou inovadores, dezenas de documentários, músicas que falam direta ou indiretamente sobre as belezas e as tragédias do mundo medieval, jogos de tabuleiro e os chamados card games. Ufa! A Idade Média está em nossas cabeças, amigos, não tem mais escapatória, e não adiante perder a coragem afirmando que tudo isto é a deturpação ou vulgarização do tema, porque é aí que está a beleza da História, ela está em todos os lugares, incontrolavelmente e absolutamente em todos os lugares.
E é aí que o estudante de graduação em História da nossa fábula veste sua armadura, monta em seu cavalo, espada e escudo nas mãos, e na sua mais sonhadora loucura, vai enfrentar seus moinhos de vento.
E ganha o mundo.

FONTES BIBLIOGRÁFICAS:
LE GOFF, Jacques. As RaízesMedievais da Europa. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2007.

E vocês? Já passaram por algo parecido? Estão contornando a situação? Precisam de ajuda? Comentem! 

2 comentários:

  1. Seria um grande erro deixar de congratular as palavras do historiador Elvio,esse texto só ressalta a importância de se estudar o que gosta, independente do que seja e de onde seja. É impressionante como essa longa duração que é apresentada no texto acima é pertinente,porém pouco nos damos conta. Muita gente deve ter puxado cobra pelos pés e no final das contas trabalhos de peso surgiram pelo mundo afora,isso se deve a coragem de lançar mão de uma zona de conforto e ir atrás,de peito aberto, do que realmente se tem interesse em estudar.

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  2. Gostei muito do texto, Elvio. Acho que é importante você falar sobre a sua experiência e sobre como o assunto é muitas vezes desestimulado pelos professores, mas ainda vale a pena ser estudado. Bastante gente gosta de história medieval e se interessa mesmo pelo assunto, mas tem medo de expandir os horizontes, medo de estudar o que gosta mais a fundo, e é muito bonito que você dê o apoio contantando o seu próprio ponto de vista.

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