por Elvio Franklin
(UFC/Valknut)
(UFC/Valknut)
Certa
vez, um mero estudante de graduação em história de uma universidade federal de
renome, situada em algum lugar do Nordeste brasileiro decidiu que deveria
seguir seu sonho ao entrar no referido curso – estudar História Medieval –
afinal de contas, ele já estava na metade do curso e já havia percebido que
poderia pesquisar o que bem entendesse, contanto que se esforçasse e estudasse
bastante. Assim, o nosso estudante sonhador aproveitou a oportunidade, em uma
disciplina que serviria exatamente com o intuito de iniciar um projeto de
pesquisa, para demonstrar seu desejo. A resposta que recebeu da
professora/orientadora foi nada menos do que a frase que inspirou o título
deste texto – “Rapaz, tem certeza que queres pesquisar isto? Você está puxando
cobra pros pés...”.
Esta
pequena fábula, apesar de simplista, representa a realidade de muitos estudantes
de História pelo Brasil afora. E nas regiões Norte e Nordeste em especial,
variações desta estória devem acontecer com muita frequência.
Bem,
estamos em pleno século XXI, inicio do segundo milénio da era cristã, e é
impossível negar as raízes medievais de toda a história posterior a este
período. O famoso historiador medievalista Jacques Le Goff explana este vínculo
no livro As Raízes Medievais da Europa, da
“Europa” diz o título da obra, mas quem a lê percebe que a expansão espacial
deste recorte é inevitável. Outro historiador francês, o não menos famoso
Fernand Braudel, nos fala de uma Longa
Duração, ou seja, a distância cronológica do período também não pode ser um
problema. A pergunta frequente que se faz aqui é: “Qual a relevância de estudar
História Medieval no Brasil?”, para quem ainda tem esta dúvida sugiro a leitura
do estudo do medievalista BRASILEIRO Hilário Franco Júnior, Raízes Medievais do Brasil, onde se
percebe que nosso imaginário, nossa cosmovisão, nossa moral e nosso sentido de
ética, estão mais próximos da Idade Média do que imaginamos. Eu já cheguei a ouvir muitas vezes a afirmativa: “no Brasil não
podemos topar com Igrejas do período medieval ou com artefatos deste período
existentes em inúmeros museus da Europa”, a única conclusão que eu tiro de quem
assim pensa é: este pobre mortal ainda
não conhece uma das maiores criações de sua raça, a internet...
Ou seja, não
há mais desculpas. A pesquisa medievalista no Brasil não só é possível, como
também necessária. Isto já pode hoje ser observado pela quantidade de grupos e
núcleos de pesquisa, revistas, periódicos e encontros com profundas discussões
sobre a temática do medievo. Em 1996 é fundada a ABREM (Associação Brasileira
de Estudos Medievais) e dois anos depois, em 1998, surge ligado á ANPUH
(Associação Nacional dos Professores de História) o Grupo de Trabalho de
História Medieval. Eventos muito importantes sobre história, literatura e
filosofia medievais acontecem todos os anos, e muitos (quem diria!) nas regiões
Norte e Nordeste. Revistas eletrônicas
(que são muito mais baratas do que as físicas, até porque são de graça!) como:
Mirabilia, Revista Eletrônica de Antiguidade e Idade Média; Signum (revista
oficial da ABREM); Brathair, Revista de Estudos Celtas e Germânicos; NuntiusAntiquus (revista do Núcleo de Estudos Antigos e Medievais da UFMG); NotíciasAsgardianas, Boletim do Núcleo de Estudos Vikings e Escandinavos; Plêthos,
Revista Discente de Estudos sobre a Antiguidade e o Medievo; a Revista MundoAntigo (sobre História Antiga, Medieval e Arqueologia da UFF); entre muitas
outras.
A
Idade Média encanta as pessoas de todo o planeta desde pelo menos o próprio
“Renascimento”. E hoje mais do que nunca, temos desde jogos digitais abarcando
o tema da antiguidade ao medievo das formas mais expressivas possíveis,
histórias em quadrinhos sobre vikings beberrões e bárbaros com machados,
literatura histórica ou romances capa e
espada, filmes os mais variados abordando temas batidos ou inovadores,
dezenas de documentários, músicas que falam direta ou indiretamente sobre as
belezas e as tragédias do mundo medieval, jogos de tabuleiro e os chamados card
games. Ufa! A Idade Média está em nossas cabeças, amigos, não tem mais
escapatória, e não adiante perder a coragem afirmando que tudo isto é a
deturpação ou vulgarização do tema, porque é aí que está a beleza da História,
ela está em todos os lugares, incontrolavelmente e absolutamente em todos os
lugares.
E é aí que o estudante de
graduação em História da nossa fábula veste sua armadura, monta em seu cavalo,
espada e escudo nas mãos, e na sua mais sonhadora loucura, vai enfrentar seus
moinhos de vento.
E ganha o mundo.
FONTES BIBLIOGRÁFICAS:
LE GOFF, Jacques. As RaízesMedievais da Europa. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2007.
E vocês? Já passaram por algo parecido? Estão contornando a situação? Precisam de ajuda? Comentem!
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Seria um grande erro deixar de congratular as palavras do historiador Elvio,esse texto só ressalta a importância de se estudar o que gosta, independente do que seja e de onde seja. É impressionante como essa longa duração que é apresentada no texto acima é pertinente,porém pouco nos damos conta. Muita gente deve ter puxado cobra pelos pés e no final das contas trabalhos de peso surgiram pelo mundo afora,isso se deve a coragem de lançar mão de uma zona de conforto e ir atrás,de peito aberto, do que realmente se tem interesse em estudar.
ResponderExcluirGostei muito do texto, Elvio. Acho que é importante você falar sobre a sua experiência e sobre como o assunto é muitas vezes desestimulado pelos professores, mas ainda vale a pena ser estudado. Bastante gente gosta de história medieval e se interessa mesmo pelo assunto, mas tem medo de expandir os horizontes, medo de estudar o que gosta mais a fundo, e é muito bonito que você dê o apoio contantando o seu próprio ponto de vista.
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