O tema
da Mitologia Nórdica está em voga atualmente em um nível em que esteve poucas
vezes em tempos passados. São filmes, jogos de vídeo game e computador, livros,
quadrinhos, entre outros, que são lançados a cada ano e com sucesso quase que garantido. Com a facilidade de obtenção de informações, o
interesse na Mitologia Nórdica e sua vastidão de fantásticas histórias tem
crescido de uma forma quase assustadora, digamos que, pelo menos nas duas últimas décadas.
O que nos leva a indagar: de que forma as pessoas apreendem essa mitologia? E qual o nosso conceito de mito?
Desta
forma, é com estas interrogações que o artigo “A Guerra entre Aesires e Vanires: a aliança entre guerra, magia e fertilidade ouas memórias de um conflito?” , publicado no periódico Alétheia Revista de
Estudos Sobre Antiguidade e Medievo e escrito pelo historiador membro do NEVE (Núcleo de Estudos Vikings e Escandinavos) Munir Lutfe Ayoub, nos faz pensar sobre o trabalho de interpretação de fontes históricas utilizando como objeto a batalha entre duas famílias do panteão da mitologia nórdica: os Aesires e os Vanires.
Em poucas palavras o autor nos dá um conceito de mito como sendo as "histórias dos antigos povos na tentativa de explicar o surgimento do cosmo, o surgimento e o funcionamento de suas sociedades, as formas de agir dos seres humanos e até mesmo o fim das sociedades desse cosmo". Mas a dúvida que fica entre os menos conhecedores do fazer historiográfico é: como sabemos tantos detalhes sobre as mitologias de povos antigos? E a resposta que lhes dou é: o que sabemos hoje é muito pouco. Isso porque dentre as principais maneiras, ou fontes, através das quais podemos ter conhecimento, seja da mitologia, seja da cultura ou da vida cotidiana de povos antigos, três são de inestimável relevância.
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| Capa da coletânea escrita por Snorri Sturluson |
A primeira são as fontes orais, ou seja, as histórias que são repassadas de geração em geração, o que é uma prática muito recorrente nas mais diversas culturas. O problema é que no caso de culturas muito antigas é deveras difícil (para não dizer impossível) você ouvir as histórias como eram contadas há centenas de anos atrás, até porque, a principal característica dessas fontes é sua capacidade de transformação conforme as histórias vão sendo contadas e transmitidas de pessoas mais velhas (no caso dos povos escandinavos e germânicos esses contadores de história eram os chamados escaldos) para os mais jovens. É exatamente aí que entra o segundo tipo de fonte: a escrita. Os povos escandinavos não tinham o costume de escrever grandes registros, isto só veio com a cristianização a partir do século XI, o máximo que era feito antes disso eram registros rúnicos em pedras, as chamadas runestones (técnica dominada por poucos naquela época) ou gravuras em rochas sobre feitos de reis, heróis ou deuses (as estelas) e imagens em adornos, amuletos e peças decorativas. Essas também são importantes fontes que, com a ajuda dos arqueólogos (o que seria dos historiadores sem nossos amigos), nós podemos obter muitas informações daqueles povos. Mas as histórias da mitologia nórdica só foram escritas e compiladas no século XIII e em documentos que só foram encontrados no século XVII. São as Edda em prosa (escritos pelo islandês Snorri Sturluson) e a Edda poética (contida em uma espécie de coletânea batizada de Codex Regius). Antes dessas duas fontes escritas o que tínhamos eram escritos de estrangeiros sobre esse povos, como a Germania do historiador romano Tácito no fim do século I, e já após a cristianização temos as sagas, que misturavam acontecimentos históricos com aspectos religiosos do antigo paganismo e do cristianismo.
No artigo, Munir nos explica que, apesar da grande relevância dessas fontes escritas, elas devem ser vistas como tendo sido confeccionadas muito depois dos acontecimentos que narram (no caso das sagas) e em sua maioria de autoria de cristãos, ou seja, que não estavam muito interessados na manutenção desse paganismo. Assim, o que dá pra fazer é, tendo isto em mente, cruzarmos as informações destas fontes entre si e entre as fontes arqueológicas e tentarmos interpretá-las. O problema (e que também é o mais legal de tudo isso) é que as interpretações podem ser as mais variadas. Daí o problema lançado por Munir no título de seu artigo: tomando como bom exemplo a história da guerra entre Aesires e Vanires, já citada anteriormente (e digo bom exemplo porque há referência a este conflito tanto nas eddas quanto em uma saga, a Ynglinga, o que proprociona o cruzamento das fontes), fica a dúvida: este conflito apenas simboliza uma nova religiosidade trazida por invasores do leste e que entraria em choque com a religiosidade dos germanos? Ou esta história seria uma espécie de metáfora para um fato real, no caso o conflito entre os invasores hunos com o povo germânico ostrogodo? Provavelmente esta pergunta jamais será esclarecida e Munir encerra o artigo deixando mais dúvidas do que respostas (e não é este senão o trabalho do bom historiador?). Mas nos deixa também um sábio ensinamento, tanto para historiadores de profissão como amadores:
"O que nos chega dos mitos
nórdicos é apenas a ponta de um grande iceberg que um dia existiu nas canções dos
escaldos e que, pelas suas execuções no tempo e no espaço, acabaram por sofrer adaptações,
a fim de melhor se enquadrarem no contexto de práticas e crenças de cada período
e região".
Isso quer dizer que, mesmo com todas as informações que tivermos sobre eventos passados, recentes ou longínquos, sobre a vida das pessoas em épocas passadas e sua forma de pensar, jamais poderemos ter certeza absoluta das coisas. Mas é aí que entra a interpretação.
Isso quer dizer que, mesmo com todas as informações que tivermos sobre eventos passados, recentes ou longínquos, sobre a vida das pessoas em épocas passadas e sua forma de pensar, jamais poderemos ter certeza absoluta das coisas. Mas é aí que entra a interpretação.
O artigo de Munir Lutfe pode ser baixado aqui.
PS: No caso da mitologia nórdica, que é a que nos convém neste blog, recomendo a leitura de um livro de relativo fácil acesso: "Deuses e Mitos do Norte da Europa" da especialista em mitologia escandinava e germânica H. R. Ellis Davidson.

Olá Élvio, gostei muito do texto. Muito legal a sua inciativa. Achei que falou bem do artigo de um jeito geral, que dá para ser compreendido facilmente, mesmo por quem não têm muitas informações sobre o assunto. Eu mesma, apesar de estar ha algum tempo no grupo, tendo a me confundir com coisas simples e é ótimo quando as informações são colocadas assim de um jeito tranquilo, listando fontes e sugerindo leitura. :) Esse tipo de texto relacionado a artigos que lemos recentemente, também é ótimo pra acompanhar o desenvolvimento do grupo mesmo e pra manter as informações. Você escreve bem.
ResponderExcluirObrigado Ana, você é um amor. Fico radiante por receber tantos elogios de uma das pessoas mais legais que eu conheci nos últimos tempos.
ResponderExcluirGostaria de saber a tradução das runas escritas no valknut ?
ResponderExcluirTe enviei por email, cara.
ResponderExcluirOlá a todos, venho pesquisando sobre a valknut já algum tempo pro ser matemático e fascinado por representações de triângulos assim fiquei fascinado pela valknut e estou querendo tatuá-la, no entanto, tenho a mesma dúvida de Tinovo e alguem puder me ajudar, agradeço...
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